THUNDA MU N'JILLA

1992 Discossete

CHERRYPaulo Flores

Ai ué cherry ai ué garota
Bonita mulata alô garina
Barona alô latona
Foi descendo a Mutamba que escalei com atenção
Aquela bela barona que me acenou com a mão
Eu então enchi o peito minhas mauas redobrei
Olhei a dama direito do acento desancentei
E do travão guinchou a roda
Abre a porta com cuidado
Me encheu a vista toda
Me deixou bem bofocado
Ai ué cherry ai ué garota
Bonita mulata alô garina
Barona alô latona
Noutro dia lhe topei na Avenida Marginal
Cherry cherry eu gritei meu empenho foi total
Lhe ofereci uma carona e ela então agradeceu
Quando cruzámos a zona o meu coração tremeu
Ai ué cherry ai ué garota
Bonita mulata alô garina
Barona alô latona
Nunca vi tanta doçura nunca fui tão bem amado
Ai meu Deus quanta ternura quanto pêlo arrepiado
Hoje ando à procura da garina que bazou
Meu coração não tem cura meu jindungo ela secou
Ai ué cherry ai ué garota
Bonita mulata alô garina
Barona alô latona

CORAÇÃO FARRAPOPaulo Flores

Para ti eu fiz um poema
Peguei na viola sozinho na cama
Fui ver de novo nossas fotos antigas
Vi você feliz sorrindo em meus braços
Coração farrapo coração vagabundo
Coração gemido coração não tem juízo
Caído na rua perdido na estrada
O brilho da lua relembra teus olhos
E ai meu coração anda de cima pra baixo
Pensando em você, pensando em você
Coração farrapo coração vagabundo
Coração gemido coração não tem juízo
Entro em cena com o coração palpitando
Esperando você chegar
Fico à toa ando perdido no palco
Saio pra rua, vejo nos becos e nos cantos
E nos lugares onde passamos encantos
Coração farrapo coração vagabundo
Coração gemido coração não tem juízo

KAPUETE KAMUNDANDAPaulo Flores

Restou saudade
Kapuete kamundanda kabolokosso
Daquele quintal onde eu brincava
O funge de milho que eu fobava
A bola de saco para jogar
Lembro o Mussulo
Kapuete kamundanda kabolokosso
Lembro a Avó Can-Can com seus mauindos
Com seus cochilos e gemidos
As suas histórias de encantar
Lembro a noite
Kapuete kamundanda kabolokosso
O forróbodó do Pai Cabé,
Com o Zé Muzuba a prima Mé
Sempre um pato pra bocuar
E eu lembro agora
Como está Angola
Com a candonga sempre em movimento
O povão explorado em sofrimento
Filhos pequenos pra criar
Mas tudo vai ter de mudar
Tudo vai ter de voltar
O forróbodó do Pai Cabé
Com o Zé Muzuba a prima Mé
Kapuete kamundanda kabolokosso
Tudo vai ter que voltar
Tudo vai ter que mudar
Quero chamar a sereia
Ver kandengues a brincar
Ver o sol nascer na areia
Quero ver acácias rubras
Ver a Ilha do Mussulo
Quero ver a minha gente contente
Quero ver o nosso Povo
Com sorrisos de alegria
Ver a Ilha do Mussulo
Quero ver o sol nascer
No riso da nossa gente
Quero ver a nossa terra feliz
Quero ver a juventude
Quero ouvir a sua voz

ISSO É BODAPaulo Flores

Uma boda o que é?
Mufetes e cabidelas
É dançar à luz de velas se a energia está às cegas
O tilintar das panelas as garinas bem acesas
Mexem forte o seu turucu pro atrevido rodopiar
Uma boda o que é?
Não te disse a cerveja
Um barril a rebolar num estomâgo vazio
Um pincho a brilhar é sentir um arrepio
Quando a gente se apercebe que a boda vai terminar
Uma boda o que é?
Kizomba vaiola bungula
Segura a energia do povo da roda
Xinguilando mais que nunca
Que a boda vai terminar
É escorregar o gatilho
Estar na roda é ser polícia é sair de lá com o filho
É bocuar nos apertados cassimbular a patrícia
Foram kambas que bazaram pra boda não complicar
Uma boda o que é?
Não te disse é ser selvagem
Pisar cacos de garrafa é pitar seguir viagem
Dar um lax no penteado ficar mais na reportagem
É posar para a garina que me está sempre a escalar
Uma boda o que é?
Kizomba vaiola bungula
Segura a energia do povo da roda
Xinguilando mais que nunca
Que a boda vai terminar

MULHERPaulo Flores

Puro sangue na alma puro sangue no corpo
Tu Foste deplorada mulher escravizada
Mas sempre Mulher
Com dois filhos nos braços foste abandonada
Sem ter que comer
Te tornaste falada foste injuriada
Mas sempre Mulher
Tiraram-te as terras tiraram-te as praias
Tiraram-te tudo
Tiraram-te o céu e aqueles matagais
Que relembras chorando
Tiraram teus pais
Violaram o berço em que tu nasceste
Acabaram com a terra
E com toda a alegria em que tu cresceste
Hoje és mulher-a-dias para dares de comer
A teus filhos queridos
A seda da tua patroa relembra o teu passado
Mas te chamam de preta gozam com teus carrapitos
Te inferiorizam te deitam abaixo
Não querem saber
Mas quando chegas a casa teus filhos para ti sorriem
E ai tu te sentes muito mais mulher

MARIKAPaulo Flores

Ontem a briga foi feia mas assim não pode ser
Passa o dia na janela esperando ver por ela
O futuro melhorar
Volta e meia meia-noite continuas a sonhar
Enquanto o povo lá fora vai chamando minha Marika
Sonhadora popular
É ela, é ela
Marika, Marika
Lembro aquela sexta-feira
Que em seus olhos de menina seu sorriso de mulher
Vi sua cara serena sua pele macia e terna
Seu desejo de viver
Cheguei-me perto dela pelo canto da janela
Pra com ela apreciar
Foi então que entendi porque o povo chama ela
Sonhadora popular
É ela, é ela..
Marika, Marika...

MINHA VELHAPaulo Flores

Cinco e meia da manhã
Sol ainda não nasceu mas a velha se levanta
Na esperança de encontrar um amor que já perdeu
E a vida que não teve
Seis e meia da manhã
Vai buscar a roupa suja para esfregar num tanque velho
Suas mãos já calejadas
Relembram mágoas passadas e manhãs de outros tempos
Sete e meia da manhã
Sai a cota já na rua para por o pão na mesa
Me acorda devagar me diz pra me ir lavar
Pra tomar meu matabicho
E ai o bicho acorda e começa a chorar
Vou chamando a minha velha para vir-me ajudar
A botar uma camisa que me custa a entrar
Vou chamando a minha velha para vir-me ajudar
E ela chega carinhosa tira a dor da minha alma
Me pede só para ter calma que ela também está cansada
Saio de roupa lavada pra brincar com meus amigos
Enquanto ela cochilava junta à porta do quintal
E o tempo foi passando
Seus mauindos implorando para ver se ela parava
Ela sempre ignorando foi seguindo trabalhando
Sem perder sua alegria
Sexta-feira sete horas
Bate-papo com a vizinha lembra das suas malambas
Recordando ardentemente um passado bem recente
Tempos de menina e moça
Hoje acorda oito e meia
Frio na terra distante minha velha está cansada
Lembra do antigamente do calor das cinco e meia
Hora que ela levantava
E ai eu chego perto e lhe faço um carinho
N’gana Zambi a minha velha que mudada que ela está
Seus olhos olham distantes e começam a chorar
Eu abraço a minha velha para não chorar sozinha
Conto então velhas histórias que a velha tinha contado
Cochilando nos seus braços eu recordo o meu passado

THUNDA MU N'JILLAPaulo Flores

Quem não quiser quem não gostar
Thunda mu n’jila
E quem comer e não pagar
Thunda mu n’jila
Vou pegar fogo vou caminhar
Vou ver minha terra
Quem não quiser me acompanhar
Thunda mu n’jila
Vou procurar vou encontrar
Crianças felizes
Encher o peito virar as costas
Viver sem medo
Vou prosear com os nossos cotas
Ouvir as histórias
Dançar nas farras beber kissangua
Acordar na areia
Ai ai thunda mu n’jila...
Thunda mu n’jila...
Vou ver Luena vou ver Malange
Vou ver Cabinda
Fazer visitas rever avilos
Correr na praia
Vou suspirar molhar os pés
Na água salgada
E vou fazer uma serenata
Pra minha amada
Me escuta povo me escuta nzambi
Me escuta Angola
Se te abafarem vira-lhe as costas
Num tem kigila
Se alguém disser que esse processo
Não vai dar certo
Olha pra ele e grita bem alto
Thunda mu n’jila
Ai ai thunda mu n’jila...
Thunda mu n’jila...

SARRABULHOPaulo Flores

Chegou o fim-de-semana
Começam os preparativos
Mais velha pega no pau kanuko adoça a boca
A ouvir os mais antigos
Chegou o fim-de-semana
Minha gente já festeja
Mantendo a tradição alegria e pé no chão
Toma mais uma cerveja
E aquele que está sentado
Ao ver a maralha toda
Alegra seu coração vai pro meio do salão
Aumentar a nossa roda
Chegou o fim-de-semana
Minha gente faz barulho
Minha gente tem nossa farra tem
Sarrabulho
Alegria minha gente
Chegou o fim-de-semana
Madié provoca madié turuku kuata turuku
Fulano sai com fulana
Chegou o fim-de-semana
Minha gente faz barulho
Minha gente tem nossa farra tem
Sarrabulho
Chegou o fim-de-semana
Chamou-se o discotequeiro
Comprei cerveja de lata vendi-a toda na praça
Pra fazer algum dinheiro
Domingo de madrugada acaba o fim-de-semana
Mais um copo no momento
Vai-me dar algum alento
Pra bumbar toda a semana
Seguindo contando os dias
Mantendo o nosso orgulho
Sexta-feira feira já chegou minha gente já gritou
Sarrabulho

CANTO DE RUAPaulo Flores

Miúdo escuta o que eu digo
Vem ver nossa tradição
Vem ver meu povo na rua
Vem ver nossa animação
Sabendo que está distante
Nossa terra nosso mar
Põe a tristeza de parte
E comigo vem cantar
Ué la la re
La la re la la ra...
De dia o canto é do sol
De noite o baile é da lua
Miúdo vem junto a mim
Cantar o canto de rua
Sabendo que está distante
Nossa terra nosso mar
Põe a tristeza de parte
E comigo vem cantar
Ué la la lé
La la re la la ra...
Miúdo escuta o que eu digo
Vem ver nossa tradição
Vem ver meu povo na rua
Vem ver nossa animação
Um dia quando cresceres
A teu filho vais contar
Do nosso canto de rua
E com e ele vais cantar
Ué la la lé
La la re la la ra...

SAUDADES DA TERRAPaulo Flores

Foi aí onde a minha infância vivi
De onde muito cedo saí
Sem bilhete de regresso
E ao partir vi o céu chorar comigo
A esperança de voltar
Vi no rosto de minha mãe escancarada
Foi ai onde o meu sorriso deixei
Onde ainda menino acordei indefeso
E ao partir resolvi trazer comigo
Meus avilos minha gente no peito
No meu coração menino
E hoje quando canto são saudades
Toda a minha vida são saudades
Meus olhar distante são saudades
Pela estrada fora são saudades
Hoje quando lembro que lá deixei
Nossas praias nossa gente
Minha voz canta mais quente de agonia
Minha gente eu prometo
Que o tempo que esperei
Me fará cantar agora
As canções que não cantei
Vou buscar o meu sorriso
Que em menino ai deixei
Vou buscar o meu sorriso
Que em menino ai deixei
E enquanto espero são saudades
O meu desespero são saudades
Ao cantar pra vocês são saudades
Ao ver o que o tempo nos fez
São saudades
Ao ouvir as histórias dos tempos
São saudades
Tempos que não voltam mais...

RECADO DE MINHA MÃEPaulo Flores

Minha mãe mandou dizer
Pros kandengues dessa terra
Esperarem mais um pouco
Que tem histórias pra contar
Minha mãe falou comigo
Transmitindo o seu recado
Diz que tem histórias lindas
Tem saudades pra matar
Minha irmã que desconhece
Diz que queria conhecer
Nossas praias nossa gente
E comigo aí viver
Minha mãe falou pra mim
Meu filho quando chegares
Pergunta pra nossa gente
O que sente
Minha mãe falou e disse
Quando fores lá cantar
Vê se nada está mudado
Se está tudo no lugar
E também falou por fim
Pra do Bengo água eu beber
Diz que vem um homem novo
Que de tudo vai saber
E é assim que eu vou chegar
Com esperança e alegria
E a todos vou cantar
O recado de minha mãe

REENCONTROPaulo Flores

Já vi o mar banhar a areia em Luanda
Vi Catumbela, Lobito e Benguela
Eu vou regressar
E ao chegar vou pedir a Sant’ Ana
Um pouco de mar
Pra poder viver com a minha terra
Pra onde eu fôr
E ao chegar vou pedir aos kandengues
Pra comigo cantar
E espalhar a notícia no povo
Que eu vou regressar
Vou chegar na puíta
Vou viver no batuque
Vou sorrir para o céu
Eu vou rezar pra Sant’ Ana
Vou pescar na baía
Dormir à beira-mar
Irei na praia morena
Vou molhar meus cabelos
Vou viver como sei
Cantando esse reencontro
Eu vou tocar na viola
Vou sorrir vou chorar
Lembro as farras em Luanda
Serra da Leba no Lubango
Acácias rubras em Benguela
Vou ver a welwitschia no Namíbe
Vou ao Maiombe em Cabinda
Já vi o mar banhar a areia em Luanda
Já vi a lua beijar o mar em Luanda
Vi beleza do seu madrugar
Vi a baía kangila voar em Luanda
Já vi verdura nos campos em flor
Vi poesia nas cartas de amor em Luanda
Vi Catumbela, Lobito e Benguela
Eu vou regressar
E ao chegar vou pedir a Santa Ana
Um pouco de mar
Pra poder viver com a minha terra
Pra onde eu fôr
E ao chegar vou pedir aos kandengues
Pra comigo cantar
E espalhar a notícia no Povo
Que eu vou regressar

MOMENTOSPaulo Flores

Olha você chega assim tão distante
E eu fico a pensar no que se passa
Sem graça vou pedir explicações
Mas não vou escutar
Dias e dias afim eu vou-lhe perseguir
Meus olhos vão-se amendrontar ao ver você partir
Mas não tem solução eu sou e fico assim sem graça
Não faças mudar o ciúme que eu sinto por ti
Nem faças tentar esconder esse ciúme
Não vale a pena e eu posso até perder
Mas não vou mudar
O jeito é cantar as canções e cantamos os dois
Fazer dessa vida um momento que nunca passou
E eu espero que o mundo adormeça da minha vida esqueça
Não faças mudar o ciúme que eu sinto por ti
Nem faças tentar esconder esse ciúme
Não vale a pena e eu posso até perder
Mas não vou mudar
Não faças mudar o ciúme que eu sinto por ti
Nem faças tentar esconder esse ciúme
Não vale a pena e eu posso até perder
Mas não vou mudar o meu jeito de ser