PERTO DO FIM

1998 Paulo Flores / Vidisco

COMO VAI MANA XIQUITAFilipe Zau / Paulo Flores

Como vai mana Xiquita a vida como vai
A saúde e seu marido como vai
Nós em casa vamos indo assim-assim
Por vezes jantar é sim quase sempre jantar é não
Uma filha anda na rua ou sei lá onde eu nem sei
Outro filho anda doente um demente fora-da-lei
A mulher engravidou-se e nem eu sei como é que foi
Meu trabalho meu salário nada valho
Ah vizinha mana Xiquita onde a gente vai parar
Peço a Deus todos os dias para a paz ter de chegar
Sofrimento...
Sofrimento assim é demais já é demais...

O DINHEIRO NÃO CHEGAPaulo Flores

Os amigos me chamam de velho cansado
Já não tenho o desejo de viver a vida
As damas me dizem que estou acabado
Que não tenho charme já não sou o mesmo
Se o dinheiro não chega pras contas do mês
Eu com n’dengues lá em casa a esperar
Se o dinheiro num chega pra pagar as despesas
E eu com n’dengues lá em casa a esperar
Pois é meus amigos comigo é assim
Se quero comida o dinheiro não chega
Se quero bebida o dinheiro não chega
Se quero as bitola pra esquecer da vida
Também não chega
Oiçam o que eu digo comigo é assim
Pra comprar vitamina o dinheiro não chega
Pra pôr gasolina o dinheiro não chega
Comprar estriquinina pra ver se me mato
Nem pra isso chega
No outro dia saí fui a uma kimbanda
Pra me ajeitar a vida
Me fez umas rezas e umas fumaças
Me passou uns banhos
Me pediu dinheiro mas eu não tinha
E ela insistiu ficou chateada
Me rogou bué de pragas me amaldiçoou
Mas pior do que está também não fica...

O QUE É QUE FICAPaulo Flores

Canjonja no que sobra o xuxa na bitola
O pobre está na obra o n’buku na vaiola
O copera no protesto o dólar na sacola
A fruta está no cesto e o n’dengue está na escola
Os quintais das tardes longas os mufetes e kizombas
E os vestidinhos de folhos
No ventre de um pescador n’zala
Ao batuque da sanzala água cresce nos meus olhos
Na grade de cerveja o que é que fica (saudade é que fica)
No bairro do São Paulo do Benfica (saudade é que fica)
A kota ainda está sentar na esteira (nossas brincadeiras)
No fim da boda sobrou a poeira (nossas brincadeiras)
No zula contra a zuata eu não minto (é tudo o que sinto)
No verso de um poema de Jacinto (é tudo o que sinto)
O pato na entrada o trolha no trambique
O forte na porrada o xuxado no alambique
Kota Elias na canção a moça na janela
Nos sonhos tradição um dia em Benguela

SERENATA A ANGOLAPaulo Flores

Com a viola na mão com mão no coração
Coração em parampas
Com o punho fechado o abrir do caminho onde vamos chegar
Com a esperança que vi estampada nos olhos daquela criança
Faminta de amor com a alma marcada de mágoa e de dor
Da tinta da caneta a força que faço no punho pra escrever
Um poema que diz que pra ser mais feliz tem que ser em Angola
Vou tentar soltar a voz debaixo da tua janela
Vou pedir a minha gente pra me acompanhar nessa serenata
Vou cantar pra te dizer que é por ti que eu consigo
Por ti que eu canto assim
Explorador dos oprimidos...fora
E os corrompidos...fora
O patife que desvia...fora
Os kubikos pras kitias...fora
As boleias dos mais velhos...fora
Os escaravelhos...fora
As princesa que têm tudo... fora
O suborno dos miúdos...fora
Os vestidos coloridos...fora
A agonia dos gemidos
Vou cantar pelo kota que bazou pra fora
E mantém a esperança antiga de voltar
Por aquela kanuka que nunca te viu
Mas que vê o seu kota chorar
Kota não chora kota não chora
Está a chegar a hora, a hora está a chegar
O n’dengue parido num longo e rouco gemido
De negra pele como negro está o seu futuro
N’dengue num chora Nuko num chora
Está a chegar a hora, a hora está a chegar
Vou tentar soltar a voz debaixo da tua janela
Vou pedir a minha gente pra me acompanhar nessa serenata
Vou cantar pra te dizer que é por ti que eu consigo
Por ti que eu canto assim
Explorador dos oprimidos... fora
E os corrompidos... fora
O patife que desvia...fora
Os kubikos pras kitias...fora
As panela sem piteu... fora
Kafokolo sem abreu...fora
O sofrer de noite e dia... fora
As barrigas tão vazias

DO QUE SOBROUPaulo Flores / Eduardo Paim

Oohh oohh oohh
Nada pra dizer nada pra contar
Nada mais eu penso esperar
Nada mais existe tudo está tão triste
Oohh oohh oohh
Nada mais receio não beijo mais teu seio
E até a esperança antiga já virou cantiga
Cantada vezes de mais
Oohh oohh oohh
Nada mais pra dar nada a esperar
Nada mais eu quero nesse desespero
De querer demais
Que Angola tenha paz
Que o tempo volte atrás
Que o destino vá por outro caminho
Que a fome não mais mate
Que o Homem não maltrate
Que até na decisão do meu eu
Não esteja mais sozinho

FIM DE SEMANAPaulo Flores

Olha a cota Vina já toda apressada pra voltar pra casa
Já leva no cesto tanta coisa boa lá da nossa terra
Seu Zé cochilou acordou mais tarde apenas para ler o jornal
Enquanto lá fora a criançada toda a correr no quintal
No passar da hora vem a cota Aurora também pr’ajudar
E no diz que disse a tia Clarice vem para contar
Que o outro deixou a outra o Zeca fugiu da tropa
Que o doutor virou maricas e o padre um sedutor
Bota o refogado e traz um bocado de amor no tempero
O peixe cozido pros nossos amigo bota a gimboa
E o peixe seco que o cota Maneda ainda trouxe inteiro
Põe agora os kiabos que já está a chegar nossa gente boa
Ué lé ué lé lé lé lé
Oh n’gala n’gihenda jia fim de semana
Olha só a Alzira com o seu bamboleo é sempre a mais bonita
E o cota Baião traz um garrafão pra alegrar os pobres de espírito
O Bala chegou ninguém convidou e trouxe uma m’boa também
O Russo ligou está com muito salu mandou dizer que não vem
A fome apertou olha quem chegou... é a tia Xó
Traz a cota Lena pra encher a bucha chama a mana Nucha
Que o pitéu já está na mesa a Milú vai já na sobremesa
A Gente falando alto com sorrisos na conversa
No jogo dos cotas sai a confusão alguém batotou
No correr dos putos algum tropeçou
Se arranhou na perna e chorou
Então peguei na viola e cantei essa canção
Pra alegrar essa família que trago no coração
A tia Linda sorriu e o Mário abraçou a mana
E a gente se despediu até o fim de semana

COISAS DA TERRAPaulo Flores

Cuca cuca parakuka carrapitos na cabeça
Granda n’bunda que ela tinha
Te dar um beijo na boca roubar manga
Roubar roupa no quintal lá da vizinha
O dikota que falou que bem cedo começou
Com as bitola mano a mano
O salário que mingou a comida que aumentou
O preço de ano pra ano
Coisas da terra, terra da gente
Coisas da gente da nossa terra
E aquela namorada que eu tive no liceu
Ai meu Deus como lhe amava
Os livros que transportei as vezes
Que gazetei pela minha namorada
E a tia que ensinava o kimbundu
Pro kanuko que ainda novo não sabia
As muzumbas que lembrava os cacussos
Que eu comprava num pescador da baia
Coisas da terra, terra da gente
Coisas da gente da nossa terra
E a cota que chingava um marido
Que bolsava pelas mágoas que afogou
E aquela tia feia que de tanta volta e meia
Ainda nem sequer casou
Os velhos salões de areia os cânticos
Pra sereia os pedidos pra Sant’Ana
Os beijos que não senti os amores que não vivi
Os quedelos de Luana
Coisas da terra, terra da gente
Coisas da gente da nossa terra
Dos becos por onde andei as garinas
Que beijei qual delas a mais bonita
Os petróleo recebi as bebida que bebi
No barengue do Xavita
Kambadiami n’za xala boba
Eme n’golokinga muive kuimbila
Via n’za n’za coko kambadiami n’za
Via n’za mu xiami xiami muangola
N’guamandala

ESTÁ A CHEGAR A HORAPaulo Flores

Está a chegar a hora toda a gente vai cantar
Toda a gente vai dançar toda a gente vai gritar Angola
Vão chegando do Marçal do São Paulo do Sambila
Os miúdo lá da Vila, Vila Alice do Cubal da Huíla
Vem com a brisa do vento com o sorriso de criança
Nas mulembas sossegar nas calemas navegar da esperança
Vão soltando num lamento no batuque na massemba
Bessangana traz com ela o maruvo que sobrou da venda
Come o pão da sua boca veste a pele da sua roupa
Dá-lhe o ombro do mais velho esquece as dicas do aparelho
Ouve a voz do coração dá-lhe amor educação
Senta só na sua esteira lhe ensina as brincadeira ahh
Angola
Está a demorar tanto que até desespera
Sente só nesse meu canto o olhar desse kanuko à espera
Está ficando tarde parem com a panela
Tragam com a brisa do mar buganvílias pra eu cheirar Benguela
Olha só olhos nos olhos nesses olhos transparentes
Por favor não ignores o sorriso das crianças crentes
Vão chegar ao pôr-do-sol todas vestidas de branco
Pra te dar mais uma chance de poderes sossegar seu pranto

NOSSA VIDAPaulo Flores

Essa é a história de um dealer janado
Conturbado corrubatado esprimido pelo tempo
Essa é a longa vida na sanzala do que come
E dos que calam das milenas e dos quinhetos
O Zeca tocou na viola o Jika dançou na vaiola
E o puto cresceu na bitola pra se acostumar
As xanas chegaram do Norte a viúva de frente pra morte
A pobre acabou no maruvo pro sono chegar
Nossas vidas eh somos nós eh
Nossas vidas Ana Angole
Essa é a história da cota de panos
Enrugada pelos anos pelos filhos que já fez
Essa é a a keta do pobre operário já mirrado
Pobre salário que recebe ao fim do mês
O Mito tocou na puíta o cota pitou na canjica
A Gena fez filha bonita pra se apreciar
Molhar na kissangua da Zita viver no kimbombo da Xica
Tocar a kizomba e a rebita pro povo dançar
Nossas vidas eh somos nós eh
Nossas vidas Ana Angole
Essa é a história da micas kimbanda
Das calemas das kiandas dos batuques ao luar
Essa é a história dum madie bangão
Calção roto e pé no chão e mil coros pra contar
O pito ajeitou na vaidade
A feia encalhou com a idade
E até minha linda Cidade com o tempo mudou
O rico roubou na maldade
O pobre emprestou na vontade
O cota chorou na saudade que ainda sobrou
Nossas vidas eh somos nós eh
Nossas vidas Ana Angole

PERTO DO FIMPaulo Flores / Simmons Massini

Que é que eu vou fazer pra não sofrer
Que é que eu vou fazer pra não chorar
Kotas e avilos vão ficando com o tempo
N’dengues já crescidos no olhar
Eu já não sei como vai ser
Como vou fazer pra me aguentar
Eu já não sei o que dizer
Tenho sete filhos pra criar
E vivo perto do fim
Olhos em volta de mim
Sete olhares no vazio
Sofrem de fome e de frio
O que irei deixar pra quem me pede
Se não ter pra dar a quem me dera
Como irei negar a quem me segue
Quando irei chegar a quem me espera
Eu já não sei se vou tentar
Se vou continuar ou desistir
Se já nem sei como chorar
Como vou lembrar de existir
E fico olhando pra mim
Perto bem perto do fim
Sete gritos num lamento
Suor do meu pensamento

A VOZCarlos Ferreira / Paulo Flores

Eu sou a voz das anharas
Dos batuques das searas
Das sanzalas perdidas
Eu sou a voz
Dessa velha
Do pano rasgado
Do rosto enrugado
Pelas marcas da vida
A voz
Do n’dengue parido
Do fogo das xanas
De um dia vencido
Eu sou a voz
Sabor de goiaba
De manga roubada
Nos quintais da agonia
Eu sou a voz
Que é de todo mundo
Meu jeito marcado
De ser essa voz
Que está ao teu lado
Do cota cansado
No ontem marcado
De um tempo vadio
Eu sou a voz
De’mboa batida
Sem saber do prazer
Domada e ferida a voz
Dos becos escuros
Das casas sem pão
Dos tempos mais duros
Eu sou a voz
Dos que o nada levou
Calados sofrendo
O que aos outros sobrou
Eu sou a voz
Que é de todo mundo
Meu jeito marcado
De ser essa voz
Que está ao teu lado

REFRÃO DA DESPEDIDAPaulo Flores