O PAÍS QUE NASCEU MEU PAI

2013 Paulo Flores

MEMÓRIA DE CAFÉPaulo Flores

Zungula vero o kimbundu
Sacode a poeira do chão
Kambuta traz a kivita
Que acorda o nosso salão
Tem kitaba, ainda mais
Mariazinha hoje não trabalha
Tem bonitas Bessanganas
Mas hoje a Maria é Madalena
Que pena, que pena…
Avó Can-can já está na cozinha
Mamã quase se adivinha
Tem cheiro a café
Pro meu pai beber
Me diga mamã mamã como vai
Meu filho vai como está
Me diga mamã como vai mamã
Meu filho vai como está
Num me acode
Se até a vela na Muxima num pode
Não trabalha…
“mata o bicho e não canjonja
que o pió está-te a chamar”

ME LEVAPaulo Flores e Isabel Baptista / Paulo Flores e Tony Sá

Por uma vez vou-me enfeitar
No trânsito marginal
Percorrendo as avenidas
Por ti sonhei, arrumar nossas preces
Em bebedeiras de felicidade
Vamos acender a Lua
E no bolso do avesso vamos se ajeitar
Desarmar a liberdade
Dizem que o mundo vai acabar
E no bolso do avesso vamos se ajeitar
Desarmar a liberdade
Dizem que o mundo vai acabar
Me leva…me leva daqui que eu vou
Me leva…me leva daqui que eu vou
Podiam ser até nossas manias
Num saco branco e azul da cor das riscas do céu
Oh vida puxa os nossos brilhos
Vamos se adoçar como se adoça ninguém
Fui na praça buscar do bom Den-den
E orei junto com ela trouxe comigo o gingar
Me leva agora que nesse lugar eu sobro pouco
Me leva agora que nesse lugar eu sobro pouco
Me leva…me leva daqui que eu vou
Me leva…me leva daqui que eu vou
E arrumei
Da boa conversa
Depois sobraram uns trocos
Que com outros juntei
Gargalhadas em ritmo de Semba
Ficou por fazer um Semba de kigilas e vitórias
Dikas e memórias amaciar os medos
Me leva na madrugada que chegou desfez a cama
Foi pra lá de sim o voltar a voltar
Foi pra lá de sim o voltar a voltar
Foi pra lá de sim massemba no Semba fez promessa
Escreveu no pó da janela
Ao lado da vida da escada tipo nada
O vadio se atirou, descobriu o Semba destapou o colo
Depois experimentou um verso um solo
Um assobio azul
Escreveu no pó da janela
Ao lado da vida da escada tipo nada
Escreveu no pó da janela
Ao lado da vida da escada tipo nada
Me leva…
Por ti sonhei…

MÃE BONDEI O MISTER MOUSEPaulo Flores

O homem se mandou na frente da batalha
A gente se aborrece a gente ralha quando calha
Às vezes nessa esquina tem uns que rezam pra voltar
Tem outros como eu que deixaram de acreditar
Se a minha mãe
Já não se encontra na casa do homem
E agora o que é que eu faço
Esqueci seu endereço
Talvez um dia eu seja
Capa de jornal
Muito conhecido
Por ter bondado o mister mouse
Talvez me crucifiquem
Talvez nem levem a mal
E eu possa envelhecer
Na minha beautiful country house
Se a minha mãe
Já não se encontra na casa do homem
E agora o que é que eu faço
Esqueci seu endereço
Por causa da fortuna
Talvez mamãe me ligue
E nessa a gente click
Nessa foto a gente fique
Na dança encho a pança
E deixo a vida por contar
E é mesmo assim que eu fico
Procurando o meu lugar
Se a minha mãe…

MAMA LÉLÉPaulo Flores, Wilson Domingos e Sarissari Diniz / Paulo Flores e Tchoboly

Entraram na casa dela
Mexeram da sua panela
Comeram a sua comida
Encheram barriga
Cozeram do seu vestido
Levaram o seu marido
No tempo da outra senhora
Disseram que a culpa é de agora
Pintaram na sua cara
Uma nova era que vingara
Novo compromisso
Por isso, ela tinha um passo lento
Outro movimento outro sentimento
Ai mamã que vida...
Mamã lélé
Eu sou filho de um professor
Vivendo nas poeiras do Catambor
Só queria voltar a ver Isabel minha kota
Que foi no tempo da kitota
Sem culpa mãe desculpa
Mas que culpa eu tenho
Se musica é meu desempenho
Mesmo com bué de empenho
O que eu sonhei eu não tenho
Mamã lélé...
O nosso passado é sagrado
Nosso segredo guardado
Angola és tu que todos nós amamos
Mas não foi isso que nós combinamos
As armas calaram–se aqui não comemora
A paz chegou mas a criança ainda chora
Eu tenho fé até um cego vê
O país ta a desenvolver mas vês os ideais
Valores morais cada vez mais a desaparecer
O próximo era mais amado Angola
O mundo tem que saber
Da história desse povo abençoado
Mamã lélé...
Talvez só na sua cidade antigamente
Tanta gente pouca gente que passava que lhe conhecia
Lhe dizia oh senhora tenha calma esse nosso povo um dia
Esse nosso povo um dia
Ai que vida mamã
Era tudo o que eu queria oh mamã
Esse povo só um dia oh mamã
Era tudo o que eu queria oh mamã
Mamã lélé...

CARA DA MADONAPaulo Flores e Irina / Paulo Flores

Aquela louca ainda varre o nosso apartamento
Mas é por causa dela que não somos iguais aos outros
Que deitam todo o lixo na rua
Mas oh meu bem você também
Nem veio a hora marcada
Nem um sinal nem uma vela
Nem uma estrela ou trança cansada
Nessa cidade que continua à luz da lua
Que beija e abraça a cidade
E adorna a velha filantropia
“exsqueeze me” Maria
Mas fui também na casa que ela tem a louca
Na terra de ninguém até a água que sobrou tão pouca
Até me lembra a cara da Madona
Naquele holiday ali onde eu passei
Ela também can reach
Nas fotos dos jornais nas fendas das janelas
“papa dont preach”

MORDIDA DE COBRAPaulo Flores / Paulo Flores e Gerard Mendes

Menina correu
Esqueceu do recado
Que Vavó mandou
Ela fazer
Mundo gira
A menina é você
Menina cresceu
Esqueceu da picada
Mordida da cobra seca
É a vida é a terra é a água
Então vai
Menina vai
Que o tempo cai
No teu cabelo
Tu és paz e luz mulher
A imaginação da tua mão beber
Água da lagoa…
Menina correu
Encarou de frente
As quedas que vem de Kalandula
Só me atura que tem força madura
Menina cresceu
Conheceu o pecado
Que mora ao lado da lagoa
Tempo voa
O tempo sabe o que magoa
Então vem menina vem
Que o tempo tem o teu cabelo
Tu és paz e luz mulher
A imaginação da tua mão beber

O PAÍS QUE NASCEU MEU PAIPaulo Flores

Tempo sente como gente
O que te pertence o momento é quente
Parece que eu tinha a certeza ainda…
Pulo brinco corro
Salto quando posso
Só não me saiu do osso
Aquilo que não vivi
Todos quase todos os modernos
Não compreendem a nossa felicidade
De correr na chuva tropical
Que abala os postiços da tal modernidade
Parecia verdade tudo aquilo que entendia
Vivo de esperança após os trinta
Pedaços de amor que ninguém pinta
Na minha baía
Nem tenho medo de nada
De Tunga Ango para Chicago
Não danço o tango Billie Jean é imortal
Nem tenho dikas pra dar
Em Moscovo Ilha do Cabo
Que é o meu bocado quando for é pra ficar
Tenho muito respeito por todos aqueles
Que sabem o que se passa do outro lado do planeta
Prefiro a gorjeta que a tal da filantropia
Quase tenho as mãos como um cometa
Num belo summer day na baía
Nem tenho medo de nada…
De Tunga Ango para Chicago
Não danço o tango Billie Jean é imortal
Nem tenho dikas pra dar
Em Moscovo Ilha do Cabo
Que é o meu bocado quando for é pra ficar

A CARTA (QUERIDA MÃE)Paulo Flores

Querida mãe espero que estejas bem
Eu aqui também nem te quero pôr preocupada
Mas aqui na banda tem gente que manda
Tem outros como eu tem outros que nem sequer já isso
A medicina ainda é o feitiço oh minha mãe
Mas a doutrina cura os infiéis desiludidos
Com o santo que tanto se venera
Bate as pernas apressado ultrapassando
O motorizado veículo enquanto o frenético discípulo
Desce a cidade de encontro ao sol do meio-dia
Querendo ao pagar seu dízimo comprar um lugar no céu
Quebram-se os ritmos fecham-se os rostos
Ignorando os desgostos ignorando a força dos “desgostados”
Inspirados aos novos sons das novas periferias
Em quantas telefonias mudam o rosto da cidade
Prédios gruas damas semi-nuas o progresso atropela
Com sinceridade a geração da utopia
Nem minha canção sorria não mais ingénua
Não como a primeira vez nem como o primeiro dia
Oh mãe oh mãe oh mãezinha
Teu filho um dia sonhou mudar o mundo
Mutilados cabisbaixos descem os compatriotas
Os cidadãos buscando notas nos semáforos
Da nova civilização
Oh mãe galaça mu galaça
Não vá eu cair em desgraça por não ser um espelho
Dos conteúdos estéreis da nova televisão
Patos natos damas com altos saltos
Frequentando as bodas onde as Marias todas
Passam pela lama do semi-asfalto
Filhas primas tuas minhas do alheio
São de quem chegar primeiro
Como alguém cantou um dia
Querida mãe espero que fiques bem
Recebe aqui também um beijo do filho que tanto te ama
Se precisares só me chama oh minha mãe
Luto para não perder tua pátria amada
Oh mãe oh mãe oh mãezinha…

TREM DA CIDADEPaulo Flores

Já tem trem de novo na cidade velha
Já tem telha
Já tem casa nova
Pros refugiados do século 21
Ali onde o mar beija a luz
É lá que a gente produz
Uma ilusão pra seguir a vida
Um alimento que Deus dará
Já tem trem de novo na cidade velha
Já tem telha
Já tem casa nova
Pros refugiados do século 21
Já tem água fresca
Mesmo o meu cabelo já penteia
Ali onde o mar beija a luz
É lá que a gente produz
Uma ilusão pra seguir a vida
Um alimento que Deus dará

SOU NINGUÉMPaulo Flores

Eu sou ninguém
Eu gosto disso
Quem manda no mundo afinal
É o jogo do bicho
Eu bebo bem sem compromisso
Quem dera que Deus não cobrasse
Mais tarde por isso
Eu sou Bantu eu sou mestiço
Mas sei que tem gente da terra
Que não gosta disso
Eu sou da África
Do sul do hemisfério
E já não compro mais tabaco
Do mano Rogério
Ai amor
Traz um pão pro nosso jantar
Que é capaz do que eu tenho
Acho não vai chegar
Quero ver…
Oh senhor
Dá-me um beijo ou uma flor
Um amor pra eu amar
Um pedaço de mar
E um país pra eu viver
Eu sou Bantu eu sou mestiço
Sei que tem gente da terra
Que não gosta disso
Eu sou da África
Do sul do hemisfério
E já não compro mais tabaco
Do mano Rogério
Sou da sanzala que bola o que vier
Sou do musseke sou do jeito que Deus quer
Eu sou ninguém, eu gosto disso
Quem manda no mundo afinal
É o jogo do bicho
Eu bebo bem sem compromisso
Quem dera que deus não cobrasse
Mais tarde por isso
Ai amor…

MANA BESSANGANAOctávio do Nascimento / Música Tradicional Angolana

Mané Mana
Mana bessa ngana
Mana Mana Manazinha
Tambuijila ngana
Mana ua kuata muzumbo
Kala nguia ya kutunguila
Mana ua kuata oh muzumbo
Kala nguia ya kutunguila
Ngolo menekena
Tambuijila ngana
Ngolo menekena
Tambuijila ngana
Mana ua kuata oh muzumbo
Kala nguia ya kutunguila
Mana ua kuata oh muzumbo
Kala nguia ya kutunguila
Oh oh mana bessa ngana
Oh oh mana bessa ngana

RUMBA PAPÁPaulo Flores / Paulo Flores e dj Manya

Quando era menino aprendi
Uma dika forte que papá me ensinou
Papá dizia…
Filho não tenha medo nem tenha pressa
Esqueça os buamado
Nem sequer se interessa
Quando as pessoas que estão do teu lado
Te puserem em causa ou te julgarem
Por teus pecados
Na vida…
E quando mais tarde cresci
E me lembrei da dika que papá me ensinara
Papá dizia…
Filho da canção
Ouve bem a letra
Ama o teu irmão
Filho da nação
Só não esperes nada
Quanta ingratidão
Na cara do homem
Filho da razão
Filho pai irmão
Na vida…
Hoje no kubiku
Já nem vem o Tito papá
Mu n’jilla jimbirila
papá wolo dila
Amo o Minguito
E só acredito
Quando me chamam
Nem sequer se proclamam
Novas virtudes ao cidadão
E assim eu vou indo
Com o furo no bolso
Uma voz e um violão
Fazendo vida
Vou fazer pirão
Para comer com a mão
Vou fazer pirão
Para comer com a mão
Bica bidon, minha canção
Correr na praia com a mão na mão
Como dizia papá
Funge de milho é pirão
Vou fazer pirão…

BATUCADA DO DESATURADOPaulo Flores

Na minha casa num tem nada
Num tem água
Num tem luz
Nada
Se eu estou bêbado
Eu estou muito bêbado
Mas é bebedeira oh mãezinha
A fome foi esconder na minha cozinha
Oh mamã, deixa

AINDA O PAÍS QUE NASCEU MEU PAIPaulo Flores e Ricardo Viegas de Abreu / Paulo Flores e Simmons Massini

Já não quero mais nada
Nao me metam mais nisso
Pensei na dipanda
Assumi compromisso
Construí a buala
Fui mutu ya kevela
Quase morri sem causa
Não fosse a filha rainha
Eu já quero só tudo
Nada de menos
Respeito aos mais velhos
Eu quero voltar a ver
O Makiezo na praça
Uma terra que cria
Donos da nossa vitória
No país que nasceu meu pai
Desse todo
Eu sou só um pedaço
E espero um dia ver
A prova que a mágoa sai
No fundo dos olhos dos homens
Justiça e água
Para eu lavar meu pai
Lenguluka que assobia
É o n’guvulo
Maka grande de um kandengue sem desculpa
Nada contra o kuduro
Sou da rebita
Sou da matriz
No país que nasceu meu pai
Caté no Sambizanga
Nós brincamos às favelas
Em todas as telas
Caté minhas vavós
Vão descer as luzes amarelas
E é lá que eu vou vê-las
*****
Vi nascer o meu pai
Da coisa mais certa
Numa proa do tempo com vento
Com a voz
Da esperança
A voz de um povo
Na melodia da noite
Na total utopia da Beleza
Sem tristeza
Com a certeza da vitória
Que pode ser incerta
Mas certeza de chegada
De um povo de história
Afinal isto não é poesia
São coisas da vida
Da vida do país do meu pai
O país do meu pai
Tem cobiça, chiça
Nos chinelos dela tem semba
Pano não cai
Me leva, me baixa... Escorrega
Na terra do meu pai
Terra do som
Às vezes até o meu pai
Se esquece da sua avó linchada
Na fogueira do mundo fármaco
Do seu mais aluguer, mais recôncavo
Sabes pai, fazes-me falta
Tu e todos os kotas do teu tempo
Que se privaram por nós, para nós
Era pra ser nós todos
Os panos serviam como livros em estantes
Licença de ter memória constante
Alicerce da vida
Qual quê
Nós todos, era pra ser nós todos
*****
Já não quero mais nada...

Caté minhas Vavós…
minhas Vavós…
Eu só vim contar a história
De um tempo não tão distante assim
Eu só vim mostrar por dentro de mim
O País que nasceu meu Pai

BODAPaulo Flores

Oh muhatu muenhó
Amba mukulo tue kué xilé
Muhatu muenhó
Amba mukulo tué kué xilé
Nosso caso nossa casa
Nossa vida por viver
Nosso caso nossa casa
Nossa vida por viver
Oh amada mulher
Se eu te pudesse explicar meu ser
Oh amada mulher
Se eu te pudesse explicar meu ser
Vem dos lenços coloridos
Carrapitos por fazer
Carrapitos pequenitos
Como aqueles que Vavó fazia
Tia Gina só trançava quem sorria
Mas no fundo eu sei que doía
Nem toda a miss casa
Nem todo o ferro é brasa
Nem toda a gorda é boda
Nem todo o veneno é cobra
Nem a palma da tua mão
Nem todo o bicho arde
Nem toda a distância invade
Nem todo o rico rouba
Nem todo o resto é sobra
Nem a cara da minha mãe
Embriagado o poeta
Que fala de amor na sanzala
Embriagado o poeta
Que fala de amor na sanzala
Você fala ninguém escuta
Você cala te perguntam
Você fala ninguém escuta
Você cala te perguntam
O kanuku na maguela se pendura
Ela diz que te ama ela jura
Nem toda a miss casa
Nem todo o ferro é brasa
Nem toda a gorda é boda
Nem todo o veneno é cobra
Nem a palma da tua mão
Espicaçado o profeta
Que fala à toa ninguém sabia
Espicaçado o profeta
Que fala à toa ninguém sabia
Quem sobrava quem sobrevivia
Quem de noite quem de dia
Quem sobrava quem sobrevivia
Quem calava quem fugia
O Baião tem o salão que lhe alivia
Dizem que tem a mania das grandezas
Nem toda a miss casa
Nem todo o ferro é brasa
Nem toda a gorda é boda
Nem todo o veneno é cobra
Nem a palma da tua mão
Nem todo o bicho arde
Nem toda a distância invade
Nem todo o rico rouba
Nem todo o resto é sobra
Nem a cara da minha mãe