INOCENTI

1995 Discossete

INOCENTIPaulo Flores

Estou de regresso à vida
Sei que estava inocenti
Que esperam de mim
Miúdo de rua de rua sem nome
De lição estudada
Na beira da estrada que não tem saída
Que querem que eu faça
Se o que aprendi foi pedir esmola
Mas se vos consola
Riam-se de mim fechem-me a porta na cara
Eu vou perguntar ao meu coração
Se não tem uma chave para abrir essa porta
Que dá para o outro lado do mundo
Esse mundo que há-de ser meu
Sem a dor de um qualquer pau nas costas
Sem mais mãos para pegar nesse pau
Estou de regresso à vida
Sei que estava inocenti
(MANECAS COSTA)
Estava
Ficava
Era Inocenti
Jurava
Sempre
Faço tudo pra me respeitar
Preso estava eu
Inocenti
Minha mãe foi mulher espancada
Humilhada ultrajada foi nha mãe
Meu pai foi mobília de bar caído
Dormindo ao relento com uma garrafa no peito
Então o que esperam de mim
O que vocês querem que eu faça
Se a vida ensinou-me assim
Alguém que me dê um sorriso
Tudo o que eu mais preciso para encontrar meu lugar
E quem achar que não está certo
Disser que eu não tenho direitos aqui eu não posso ficar
Que venha me olhe nos olhos
E pegue na primeira pedra ou então que se cale pra sempre

COISAS E LOISASPaulo Flores

No tempo do panco crescido
Na era do vinco na calça
Da calça com boca-de-sino
Do sino tocar todo dia
Na epóca de romarias
Marias de maridos certos
E não dos maridos daquelas
Que são ganha-pão dessas certas Marias
Por isso conheço o irmão de um avilo
Que é amigo de um kamba de outro
Esse outro que tem um avilo
Que diz que é irmão desse kamba meu
Ti Chica espreitando a janela
Janela de frente pra a rua
Da rua que fica em frente
Do outro lado da mesma rua
Maria morava num canto
Num canto da rua do meio
E o vento despiu a Maria
E deixou-a nua no meio da rua
Por isso conheço o irmão de um avilo
Que é amigo de um kamba de outro
Esse outro que tem um avilo
Que diz que é irmão desse kamba meu
Zeca fica n`gone com o barulho
Cuspe seca logo na garganta
Zeca fica n`gone com o barulho
Seca seca seca na garganta
Zeca atrevido quem te manda
Meter-se com a dama do outro
Zeca atrevido quem te manda
Meter-se com a dama do outro

VELHO AMIGO CORAÇÃOPaulo Flores

Eu venho falar outra vez
Desse meu velho amigo
Das paixões que por ele eu passei
Desilusões
Que em meu peito guardei
Velho amigo tantas vezes te chamei
Te pedi pra deixares meu peito eu sei
Mas o amor não escolhe a hora
E quando és tu quem chora
Eu choro também
O amor não escolhe a hora
Mas quando és tu quem chora
Eu choro também
Coração vadio soltando gemidos
Coração amigo sofrendo comigo
Coração sofrido marcado pelo tempo
Coração és meu maior amigo do peito
E às vezes quando mais nada interessa
E vem dentro de nós aquela solidão
É então que outros olhos aparecem
E trazem outro coração também
Que sofre como tu em qualquer canto de um peito
Lembro-te agora velho amigo
Que de ti nada consigo esconder
Quando choro sei que tu choras comigo
Coração gemido
Amigo agora estás cansado e já não bates como antes
Até às vezes tenho medo de perder o teu sentir
Não quero nem pensar em teus pedidos incessantes
Pra te deixar partir
Amigo escolhe a hora
Mas se tu fores embora eu hei-de ir também
Amigo escolhe a hora
Mas se tu fores embora eu hei-de ir também
Coração vadio soltando gemidos
Coração amigo sofrendo comigo
Coração sofrido marcado pelo tempo
Coração és meu maior amigo do peito

MARCASPaulo Flores

Meu filho nasceu longe dela
Com os olhos molhados num canto
Parece que até quer chorar
Da túbia perdida no asfalto
Do grito do homem mais velho
Do cheiro da morte no ar
Dos cotas na terra distante
O tronco manchado de sangue
E o sangue que nunca secou
O grito da última esperança
Da marca deixada no peito
Da ferida que nunca sarou
É dela que eu venho falar
A terra que já foi menina
E hoje a fizeram mulher
Das marcas deixadas por ela
Dos putos perdidos num canto
Num canto de um bairro qualquer
A terra que me fez chorar
Ao vê-la perder os seus filhos
Seus filhos que querem voltar
A terra que me fez chorar
Ao vê-la perder os seus filhos
E alguns já nem podem voltar

MUKANDAPaulo Flores

Na na na na Na na na né
Na na na na Na na na né
Tem uma mukanda que chegou da terra
Da terra do Semba do sonho das pemba
Tem uma mukanda que chegou de lá
Lá do outro lado do mar
De onde a saudade não sai
E a felicidade não chega
Mukanda de ami, mukanda de Angola
Que fala de tudo com certeza
Sempre com tamanha beleza
Na na na na Na na na né
Na na na na Na né
É essa mukanda que chegou para mim
E eu tenho medo de abrir
É essa mukanda de grito e de mágoas
Que eu quero evitar ler agora
Porque a minha terra só chora
Ai a nossa terra só chora
Na na na na Na na na né
Na na na na Na né
Canjila leva esta mukanda
Que eu trago guardada no coração
Das minhas letras faz chuva
Das minhas palavras faz pão
Canjila pega essa vontade
Que eu trago comigo de ser diferente
Semba na minha canção
Para alegrar minha gente

N'DENGUE DE RUAPaulo Flores

A quem vou perguntar
Aonde estão meu pai minha mãe
A quem vou perguntar
Aonde estão meu pai minha mãe
A quem vou procurar
Quando precisar de um carinho
De um carinho com quem vou ter se precisar
De um carinho com quem vou ter quem vai me dar
Que posso eu esperar se nada tenho a dar
Se o pouco que aprendi foi dor
Sou eu criança nua
Kandengue de rua num canto qualquer
Sou eu criança nua
Kandengue de rua num canto qualquer
No meu sofrimento só por um momento
Estendo as minhas mãos
E abro o meu sorriso se isso for preciso
Para tocar seu coração
E para sempre
Sempre ser feliz
E poder sempre
Viver no meu País
Sem ter um nome de rua
Que alguém tentou me dar
E para sempre
E sempre ser feliz
No meu sofrimento só por um momento
Estendo as minhas mãos
E abro o meu sorriso se isso for preciso
Para tocar seu coração
E para sempre
Sempre ser feliz
E poder sempre
Viver no meu País
Sem ter um nome de rua
Que alguém tentou me dar
E para sempre
E sempre ser feliz

DEIXE ESTARPaulo Flores

Morena vestido rosa sapatí
Agarra a peça
Je ne sais pas si tu viens
Pour moi, mon ami
Nem me interessa
Eu aqui prefiro Luanda
Pra ouvir os antigos
Os donos da banda
Contando histórias pra gente aprender
Morena vestido rosa sapatí
Só penso nela
Je ne sais pas si tu viens
Pour moi, mon ami
Também deixe estar
Eu aqui prefiro Benguela
Lubango, Malange
Saurimo e Gabela
E bola de trapo pro dengue jogar
Vemos o tempo a passar
A espera a aumentar
Mas à medida que o tempo passa
Também deixe estar
Morena vestido rosa sapatí
De outros tempos
Je ne sais pas si tu viens
Pour moi, mon ami
Também deixe estar
Eu por mim fico com a minha gente
Comendo no chão
Como antigamente
Trocando histórias
Que o tempo deixou
Morena vestido rosa sapatí
Suku ni muanha
Je ne sais pas si tu viens
Pour moi, mon ami
Mas agora aguenta
E se não gostas baza
Que eu por mim já fico contente
Ki uesa lelo, ki uesa maza
Para ires lá fora contar
Que a malta na terra é assim
Vemos o tempo a passar
A espera a aumentar
Mas à medida que o tempo passa
Também deixe estar

MOÇAMBIQUEPaulo Flores

Meu irmão meu irmão
Tua força senti irmão
Viajei, encontrei-te
E no meu sonho dei-te a vida
Meu irmão peito aberto
E ter a vida como tua
Num desejo incontido
De encontrar um novo alento
Para a gente que espera
Pelo teu canto livre
Pelo teu novo olhar
Pelo teu afirmar
Meu irmão eu desespero
Dizem que eu perdi por sonhar
Ser melhor, procurar encontrar
Por eu ter sangue de negro
Por não querer ser diferente
Ser feliz sem guardar mágoa
Beber da tua mão a água
Que correr no teu País
E ser feliz
Meu irmão meu irmão
Eu sonhei que ao partires irmão
Do teu canto nasceram novas flores
Com o teu amor
Nós contámos novas estrelas
Da tua força quisemos ser melhores
Meu irmão
Com teus olhos vimos mudar o mundo
Do teu pranto saudámos novas vidas
Da tua voz ouvi dizer Moçambique em Paz
Moçambique em Paz

ÁFRICA TERRA QUERIDAPaulo Flores

Aquela dikota forte
Aquele jeito raçudo
A gente que vem do Norte
Os damos que ficam mudos
Aquela kubata antiga
Aquela antiga esperança
No vazio da barriga
No olhar de uma criança
Oh África Oh terra querida
Oh África Oh terra Angola
E aquele sujeito magro atrevido
Com seu jeito bangão de quem sabe tudo
Chega na casa do outro na hora
Chora chora entra logo não faz cerimónia
E no quintal uma velha tia batendo funge
Com a mão na cabeça suspira cansada
E ele de pronto se presta a ajudar
Pega num banco pra cota abancar
Pega num n’guiko e bate com n’guzu
E nem dá tempo para recusar
Uma bitola até vinha a calhar
O amigo o tal o dono da casa
Fica em brasa
E diz que tem que ser ele a bater
Mas o madié não desarma
Bate uma calma
Diz que não tem problema nenhum
Ah ah tia traz mais um prato que chegou mais um
Africa Oh terra querida
Africa Oh terra Angola
O Progresso e o Sambila
Aquele amargo gosto
Os trumunu lá da Vila
O Petro e o 1º de Agosto
Com os cambas lá do Rangel
Faz tempo que já não saio
Quem eu mais sinto na pele
Meu querido 1º de Maio
África Oh terra querida
África Oh terra Angola
Minha terra