CANTA MEU SEMBA

1996 RMS

CONTA COMIGOPaulo Flores

Se acaso te dizem que é tua máxima culpa
Que a vida te corra mal pra caramba
Acredita não te fies nos outros
Coragem não te deixes meu camba
Se a tua garina fugiu com outro madié
Até o gimbuku mal dá pra comprar o pão
Amigo vem desabafa comigo
Consola e alegra o teu coração
Conta comigo, avilo conta comigo
Conta comigo, amigo conta comigo
Se vives chorando (conta comigo)
Sofrido e magoado (conta comigo)
Se o cinto te aperta e o dinheiro te falta (conta comigo)
Se vives chorando com falta da terra amigo conta comigo
Estás longe da terra sozinho e amargurado
Até as bitolas não páram teu sofrimento
Amigo vem pra Benguela comigo
Esquece essa tristeza um momento
Se estás cansado da vida que tens levado
E a saudade machuca o teu coração
Ai amigo canta essa keta comigo
S’embora traz o teu dengue p’la mão
Conta comigo avilo conta comigo
Conta comigo amigo conta comigo
Tu que vives sem eira nem beira (conta comigo)
Que só tiveste maka a vida inteira (conta comigo)
Tu que vives sem eira nem beira (conta comigo)
Sem amigos sem heróis e sem maneira (conta comigo)
Tu que vives só longe da terra (conta comigo)
No Chorar Dum puto na ilusão da guerra (conta comigo)
Tu que vives num bairro de lata (conta comigo)
A solidão maltrata e a distância mata (conta comigo)
Num abraço quente toda a minha gente (conta comigo)
No estender-te a mão no poder dizer (conta comigo)

MONAMI N'ZALAPaulo Flores

Mametu mametu n’za
Monami ni n’zala
N’golo kukala kala
Tatenu monami n’zala
Eme n’golo banza
Eme n’golo kubanga
Ai ai monami ai ai monami
Ai ai ai ai ai ai monami n’zala
Isua ioso muene olo kinga
N’gui onoka miringui
Eme n’golo kubanga
N’zambi za pala kutala oh vida triste
Muene kitari ua vuolo
Kubata iami n’zala

PAI CABÉPaulo Flores

Pai olha só como o tempo passou
Pai olha só como a gente mudou
E sem notar a gente se afastou com o tempo
Pai pai olha só como eu já não choro no teu colo
Pai pode ser que um dia eu cresça
Ao ponto de sem ter teu carinho
Conseguir perseguir meu caminho
Sem ter esse teu jeito maduro
de agarrar minha mão me levar
Pai tanta coisa que a gente não fala
Se envergonha e com o tempo se cala
Que tem no fundo do peito um depósito de lágrimas
Pai teus cabelos já da cor da vida
Do sal de uma lágrima caída
Pai parece que o mundo perfeito
Se resume entre o teu e o meu peito
Oh nada mais, tudo mais, tanto faz... nada mais
Por mais que eu queira
Eu não consigo evitar
O teu cansaço o teu andar devagar
Marcas no peito
E a tua voz enrouquecida dessa vida
Por mais plateias pra quem eu cante
Por mais sucesso por mais amigos
Por mais aplausos
O teu sorriso e o teu abraço é o que preciso
Por mais que eu cresça por mais que eu viva
Por mais que eu saiba por mais que eu sinta
Por mais amores
São tuas mãos já calejadas meu carinho
Por mais que o tempo queira passar
Por mais que o fim teime em chegar
O meu carinho
Pra teu conforto o meu abraço se precisares
Pai pode ser que por ti eu consiga
Ser mais firme mais forte e mais eu
Sempre soube que tu me amavas
Mesmo quando tu não estavas
Sempre foste o meu maior herói
Tantas bolas por jogar
Quantos abraços por dar meu pai
Tantas farpas no caminho
Quanto amor quanto carinho
Tantas lembranças já idas
Quantas emoções escondidas
Quantos sonhos velho amigo repartiste só comigo
(refrão)

ANGOLA TU ÉS CAPAZPaulo Flores

Em cada sorriso um novo riso
Em cada olhar um novo lamentar
Uma última gota escorrendo numa face cansada
Da poeira da estrada do sol dos sete dias
Em cada cantiga uma voz amiga
Em cada canção um novo coração
Uma velha emoção escondida num peito solta o gemido
De uma voz enrouquecida pelas makas da vida
Em cada momento um novo sentimento
Por cada porta fechada um raio de luz nos mostra a saída
Por cada parasíta urbano que tenta lixar o progresso
Espero ter um par de braços pra me abraçar no regresso
Quero ver minha terra cada vez melhor
Quero ver minha gente respeitada
E em cada encruzilhada querer cada vez mais
Quero ver nosso povo novamente e pra sempre a sorrir
Em cada lugar quero ver uma flor na janela
E ao despertar sem mais parar poder gritar
Angola tu és capaz
Em cada partida uma nova vida
Em cada corpo tombado o sublinhar do recado
É angústia que trago em meu peito
É o acreditar mesmo assim
Dizer que sou capaz à vida digo sim
Em cada criança uma nova esperança
Em cada cantar um novo balançar
Nesse triste balanço que me cala fundo na alma
Do sentir o sabor do funge e o óleo de palma
Em cada Angolano mais nenhum engano
E nesse mundo que rola termos a nova Angola
E em cada poema uma foice cada poeta um trabalhador
Escrever com gotas de suor pra ver Angola melhor
Escrever com gotas de suor pra fazermos Angola melhor
Quero ver minha terra cada vez melhor
Quero ver minha gente respeitada
E Em cada encruzilhada querer cada vez mais
Quero ver nosso povo novamente e pra sempre a sorrir
E em cada lugar quero ver uma flor na janela
E ao despertar sem mais parar poder gritar
Angola tu és capaz

AO PASSAR DO TEMPOPaulo Flores

Já faz tanto tempo a gente sempre a esperar
E o tempo que não pára de passar
Um kota sentado atrás de um vidro embaciado
Pelo frio que faz lá fora
As costas curvadas do passar do tempo
Dos sacos nas costas duma construção
O corpo molhado do bater da chuva
Do petrificado e velho coração
Até os meus avilos já faz tempo
Gostava de revê-los abraçá-los por um momento
Até minha mamã n’zambi faz tempo
Olha só aquele kota que chora
Mas a gente sabe que um dia há-de chegar a hora
De viver a vida como a vida deve ser vivida
Na nossa terra, terra querida
No ritmo do tempo a gente tenta apressar
Pra ver se descobre uma maneira nova de chegar
Um dengue perdido um velho kota sofrido
As pernas cansadas de tanto caminhar
A lágrima chorada atrás de uma janela
O fundo vazio na minha panela
O teimar ainda e o acreditar que a gente vai chegar
Ai até o tempo vai parar por um momento
Pra nos receber pra nos ver chegar
Até minha mamã n’zambi vai dar tempo
Olha só aquele kota que chora
Mas a gente sabe que um dia há-de chegar a hora
De viver a vida como a vida deve ser vivida
Na nossa terra terra querida

VIDA DIFÍCILPaulo Flores

Agora tá ‘mbora díficil os preços na praça sempre a subir
E a gente agora só chora mamã mamã
Olha os buraco na rua olha as barriga vazia
Olha o kandengue que dança pra esquecer a fome
Ai vida difícil
Ai vida da gente que sente essa vida
O mano bazou pro estrangeiro pra trabalhar fazer dinheiro
A ilusão se acabou sem demora
Olha o cauelo da tuga olha essa mágoa no peito
Olha o mais velho que dança pra esquecer da terra
Ai vida difícil
Ai vida da gente que sente essa vida
Agora até as miúda aprendem depressa na escola da vida
É vê-las nos cantos das ruas
Olha essa boca pintada olha o crescer prematuro
Olha a criança nos olhos por trás do sorriso
Ai vida difícil
Ai vida da gente que sente essa vida
É tanta essa dor no peito
Até minha voz já nem sai direito
Mas juro não calo o meu canto
Por esse mano lá longe pela miúda de esquina
Para encher com alegria a barriga do n’dengue
Olha o batuque que grita olha a puíta e o reco
Olha a guitarra chorando mantendo a esperança

MENINA VOÇÊ ABUSAPaulo Flores

Tem uma mina na minha rua
Que brilha mais que a própria lua
O meu olhar não se habitua a vê-la passar
Com seu andar bamboleante
Com seu jeito provocante
Sua boca de trezentas horas de amor
Um avilo meu deu uma farra
E ela lá estava do outro lado da sala
Com seu olhar melancolia
Seu vestir sabedoria
Seu saber cruzar as pernas pra sentar
Menina você, você abusa
Tira a blusa que eu te mostro
Que você me usa e eu te gosto
Menina você, você me mata
Me maltrata que eu te deixo
Me morde me arranha no queixo
Ganhei coragem pra pedir-lhe pra dançar
Com medo que as pernas
No meio da dança pudessem falhar
Colei a cara de leve na cara dela
Pus o meu braço na cintura dela demos as mãos
Lhe apertei forte e dancei com ela
Fiz-lhe de tudo para lhe mostrar
Tentei de tudo pra lhe impressionar
Pus-lhe de lado pra ela me pisar
E boops e olhar pra mim
Ela me olhou com jeito de desculpa
Eu disse ‘Não, é minha culpa
Fui eu que tentei pra lhe impressionar’
Mas tropecei nela
Ela sorriu de novo me abraçou
Meu coração avilos palpitou
Lhe apertei mais forte e a gente
Então dançou
Menina você, você abusa
Tira a blusa que eu te mostro
Que você me usa e eu te gosto
Menina você, você me mata
Me maltrata que eu te deixo
Me morde me arranha no queixo
Termina a keta ai a gente se separa
Ela afasta devagar a cara
E vai sentar lá do outro da sala
Fico andando falando bem alto na sala
Que é pra ver se ela me repara
Ela me olha e dobrando o dedo ela me chama
Disse que sabia que eu morava na sua rua
Pediu-me pra lhe acompanhar
Pra lhe levar lá na casa dela
Pus a chave na ignição
E o ruca arranca sem hesitação
Derrapa no chão ela solta um grito
E na minha perna põe sua mão
E o meu coração
Batendo mais forte é tanta emoção
Que eu travo o meu carro
A gente se beija se ama
E então você abusa

RAPZOMBA (CONTA COMIGO)Paulo Flores

Medicamentos são uma tristeza
Os nossos lares são uma pobreza
O ensino que se faz pela rua
O choro de uma criança nua
A falta de solidariedade tua
Tudo isso existe tudo isso é triste
Pra tudo isso a gente fecha os olhos pra não ver
Por tudo isso a gente fecha os olhos porque quer
Essa vida que a gente leva
A cabeça anda à roda
Ando dum lado pro outro coração agitado
Essa vida que a gente leva
De dia na escola o recreio
De noite na rua o passeio
Trazendo na boca um barato batom
E o copéra que pára na esquina
Chama a catorzinha pra dentro da carrinha
Mete uma conversa pra quebrar o gelo
Veio para Angola pra ensinar o bê- a -bá...
Eh mais B que bá...Porque é B de burro
Broncossauro é B de bronco
De batráquio B de bebâdo
De boçal é B de besta B de basta
Que Angola ainda é nossa
Essa vida que a gente leva
A cabeça anda à roda
Ando dum lado pro outro coração agitado
Essa vida que a gente leva
Agora temos um sistema liberal
Democracia etc e tal
Qualquer preconceito é banal
O sistema de ensino funciona mal
Até uma consoante já virou vogal
Chego em casa pego a dama com outro tal
Sai porrada o cara morre no hospital
E eu pergunto “É mal...?!”
Essa vida que a gente leva
Um kandegue gemendo na rua
Um kota kubando num banco de cimento
Os olhos cansados de tanto sofrimento
Tudo isso pra nós é normal
Pra tudo a gente diz não faz mal
Pra tudo a gente tem um jeito
O que eu quero é ter o dinheiro no bolso
Pra comprar uma bitola pro almoço
Pra aguentar as makas que vierem
Essa vida que a gente leva
Tu que vives sem eira nem beira (conta comigo)
Que só tiveste maka a vida inteira (conta comigo)

KANDENGUE DE ANGOLAPaulo Flores

Sou eu kandengue de Angola
Semente de terra banhada por mar
Sou eu bagagem desfeita
Sou um entre tantos sou eu
Sou de Angola
Se um dia o regresso chegar
E ai eu voltar vou vibrar de emoção
Vou rever meus avilos do peito
Vou falar dos tempos de outrora
Vou dizer que chegou nossa hora
Vou sair nesse barco de sonhos
Outra vez nesse mar navegar
Vou voar sobre a minha cidade
Sem idade sem medo sem credo
Vou correr pelas praias e agora
Vou sentir maresia na face
Não vou ter o medo de sonhar
Não vou ter vergonha de sorrir
Nas estrelas de Luanda
Onde a linda kianda vai-me abraçar
E ai vamos juntos festejar
Tradição não vai faltar
Nas esquinas nos musseques
Mama n’gienda mama
Mama n’gienda caçule
Caçule n’gienda xi ami
Xi ami ene alengue

CANTA MEU SEMBAPaulo Flores

Pedi pra vavó contar histórias dessa mulata de Benguela
Pedi pra vavó falar, falar-me dos pescadores da Catumbela
Ai ela falou-me de tradição pro meu coração
E nasceu meu semba
Pedi pra vavó contar como era uma kitanda em Luanda
Pedi pra me descrever o pôr-do-sol de Malange ao entardecer
Falou-me de todo o mundo ensinou-me o kimbundu
E assim nasceu meu semba
Por isso eu vou cantar o semba
Por isso não vou calar meu semba
Se eu não cantar agora sei que a minha velha chora
Com saudades da mulemba
Onde na sombra sentada ao entardecer
Escutava o semba
Pedi pra falar bonito do jeito que ela escutou lá no Lobito
Pedi para me contar como era lindo o Lubango e o seu luar
Falou de Kuando Kubango no tempo em que namorando
Dançou o semba
Pedi pra vavó contar histórias lá de Caxito e Xamuteba
Pedi para me falar das mulheres de Cabinda terra linda
Falou-me de tudo isso do encanto e do feitiço
E assim nasceu meu semba
Por isso eu vou cantar o semba
Por isso não vou calar meu semba
Ai se eu não cantar agora sei que a minha velha chora
Com saudades da mulemba
Onde na sombra sentada ao entardecer
Escutava o semba